Em um dia normal eu me senti mal então olhei para o céu e orei para o cruel.
O cruel destino.
Então eu abri o olho e estava de frente para o infinito.
Dirigindo um carrossel rumo ao “cruel” voei pelo céu.
Me senti como numa escada para o destino, uma escada rolante.
Não desanimo.
Impossível parar, parei de orar e comecei a olhar, olhar para o cruel.
Eu entrei em um corredor livre de dor e de qualquer odor.
Eu olhei para cima e vi inferno abaixo de nós.
Eu vi o diabo pedir perdão e o santo cair em tentação.
Eu vi a TV e suas divindades.
Orgulhosos sem dignidade.
Oportunistas sem oportunidade.
Comunistas sem comunidade.
A porta brilhou e o tempo parou.
Abri a porta e dei de cara com a verdade disfarçada de beldade escondendo sua maldade.
Dei de cara com o templo, dei de cara com o tempo
Me segurei nas paredes de ouro, sentindo um falso agouro.
Cai no chão de diamante como uma alma derrapante.
Olhei para o norte e revi a morte, disfarçada de fim, me olhando afim.
Virei para o leste onde os deuses nasciam, os do dia e os da noite.
Senti a ferroada do escorpião, perfurando meu coração, perfurando a minha antares, cai no centurião e me virei na outra direção.
Lá estava o oposto cardial onde morriam os deuses, os bons e os maus.
Eu fui tocado pelo fim e acordei no paraíso, senti a leveza das nuvens que eu piso.
Estava na mesa dos deuses, os novos e os velhos, os anjos e demônios, os sinônimos e antônimos.
Olhei pro céu e vi a lua.
Eu vi Apolo e seus cavalos.
Poseidon e seus robalos
Afrodite e sua beleza.
Hades e sua avareza.
Hermes e suas cartas.
Dionísio e suas taças fartas.
Ares e sua guerra.
Atena e sua terra.
Hefesto e sua criação.
Hera e seus filhos.
Deméter e seus sítios.
Zeus e seu trovão, mirando em minha direção.
Senti o estrondo e a escuridão, acordei perante Íbis e sua sanção.
A balança, a pena e meu coração.
Num julgamento de Sangue.
Pisquei, fui julgado, condenado e jogado num pacto de sangue.
Pessoas estranhas, comiam minhas entranhas, asas escuras, baixas alturas.
Acordei de verdade, no chão da minha casa, a casa se extravasa, no chão do banheiro, molhado inteiro.
Eu estava sujo e manipulado.
Sujo pelo proibido, marcado pelo pecado.
Fora de mim, me levantei pensando "logo cairei".
Sibilei "Você está velho e acabado, o fracasso é teu retrato".
Me apoiei na pia, ouvi o som da Harpia.
Eu olhei pro espelho, senti a dor e o odor, a falta de cor.
Prometi nunca mais, falei jamais, me senti como o corvo perspicaz.
Insisti.
Fraquejei, prometi aos deuses nunca mais, mas olhei pro demônio no espelho e perguntei "Vamos de novo? Você quer eu sei".
E lá se foi pela última vez...em um, dois e três.
O silêncio é a melhor armadura e uma arma dominada por poucos.
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